
Christiane Bôa Viagem, jornalista
Este ano foi lançado o filme “Ângela” que conta a história da socialite mineira Ângela Diniz. Ela foi assassinada por seu companheiro Doc Street em 1976 quando Ângela tinha 32 anos. Com os olhos de hoje, o que chama atenção a sociedade brasileira à época que ficou ao lado do agressor. Em outro momento da nossa história, trazido pelo documentário “Elza e Mané, o amor entre linhas tortas”, que conta a história do relacionamento da cantora Elza Soares e jogador de futebol Mané Garrincha, a opinião pública conservadora também se posicionava contra a mulher. Elza era considerada culpada pela decadência do jogador. No entanto, devido ao alcoolismo, Garrincha a agredia com frequência.
A história de Maria da Penha também não é diferente. Foi agredida durante anos pelo marido, que tentou matá-la duas vezes. Depois de 19 anos de luta na Justiça, conseguiu que ele fosse preso. Estes casos são conhecidos por tantos. Mas quantas Ângelas, Elzas e Marias conhecemos que vivem relações abusivas? O que há de comum nessas relações? Além da sociedade machista e patriarcal que vivemos, há um ciclo de violência que, segundo o Instituto Maria da Penha, passa por três fases.
A primeira fase é o aumento da tensão na relação. Nos relacionamentos, há um encantamento entre o casal, no entanto, numa relação abusiva, há uma tensão pré-estabelecida. Situações irrelevantes causam tempestade em copo d’água. Normalmente o homem começa a se sentir mais tenso e irritado e pode ter alguns acessos de fúria. A tensão tende a aumentar cada vez mais. A mulher passa a se sentir confusa ou culpada, aflita e começa a evitar comportamentos que possam irritar o companheiro.
Na segunda fase desse ciclo, chega-se ao limite. O homem perde o controle e começam as agressões verbal, física, psicológica ou patrimonial. A mulher sofre uma intensa pressão psicológica, sentindo-se paralisada e impossibilitada de agir. É nesse momento que há um afastamento entre o casal.
A terceira fase é a do arrependimento, chamada também de “lua de mel”. O agressor se mostra arrependido, busca a reconciliação, torna-se amável. A mulher acredita na mudança do companheiro e se inicia um período relativamente calmo. Foi nessa fase, por exemplo, que Maria da Penha concebeu sua terceira filha, acreditando do arrependimento do marido.
Nada muda e o círculo vicioso da violência volta para o início. À medida que o tempo passa o ciclo torna-se mais frequentes e diminui a duração entre uma fase e outra, e não há mais uma ordem clara entre elas.
Conhecer esse ciclo é importante para identificá-lo quando está ocorrendo para que seja interrompido o seu curso. Geralmente, o rompimento do ciclo de violência acontece por meio das próprias mulheres agredidas ou por denúncia de terceiros. O ciclo também pode ser rompido pelo agressor caso tome consciência do que é violência, como ela se manifesta e do próprio ciclo.
É pelo agressor que a Rotulus busca romper esse ciclo por meio de sua intervenção que está sendo desenvolvida para homens autores de violência doméstica tomarem consciência do seu papel nas relações abusivas.